Moradores de 65 edifícios inclinados localizados na orla de Santos participaram de uma reunião para discutir alternativas que possibilitem o financiamento das obras necessárias para corrigir a inclinação dessas construções.
O principal objetivo do encontro foi debater formas de viabilizar uma linha de crédito junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), permitindo a execução dos projetos de reaprumo dos prédios.
A proposta ganhou força após uma reunião realizada no fim de março, quando foi apresentada a sugestão de criação de uma modalidade específica de financiamento voltada às intervenções estruturais nos edifícios inclinados.
Além dos moradores, o encontro contou com a presença de representantes da Prefeitura de Santos, engenheiros e arquitetos, que participaram das discussões realizadas na Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos (AEAS).
De acordo com o vice-presidente da Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (ACOPI), Carlos de Abreu Neto, a reunião ajudou a esclarecer dúvidas dos síndicos e moradores, trazendo mais segurança em relação às possíveis soluções para os imóveis afetados.
Obras podem ultrapassar R$ 20 milhões
O custo para corrigir a inclinação de um único edifício pode chegar a R$ 20 milhões, dependendo das características da construção e das intervenções necessárias.
Segundo representantes dos moradores, a intenção é obter condições de financiamento que tornem os pagamentos viáveis para os proprietários. Na prática, o impacto financeiro seria semelhante ao pagamento de uma taxa condominial adicional ao longo do período de quitação.
Neto explicou que cada prédio possui particularidades próprias, o que influencia diretamente no valor final da obra e no tipo de solução técnica adotada.
Ele também destacou a preocupação constante dos moradores, que convivem com a insegurança sobre a preservação de seus imóveis, muitas vezes considerados o principal patrimônio de suas famílias.
Prefeitura pode atuar como garantidora
Uma das propostas em discussão prevê que os recursos cheguem aos condomínios por meio de financiamento concedido pelo BNDES. Nesse modelo, a Prefeitura de Santos poderia atuar como terceira garantidora da operação.
A função do terceiro garantidor é oferecer uma garantia adicional à instituição financeira, assegurando o pagamento da dívida caso o responsável pelo financiamento não consiga cumprir os compromissos assumidos.
Caso a linha de crédito seja aprovada, a próxima etapa será a análise técnica individual de cada edifício. O objetivo é identificar as necessidades específicas de cada construção e estabelecer uma estimativa real dos custos envolvidos nas obras.
Administração municipal acompanha negociações
Durante a reunião, o secretário de Governo de Santos, Fábio Ferraz, afirmou que a administração municipal está empenhada em buscar alternativas que permitam a execução dos projetos.
Segundo ele, as propostas apresentadas ao BNDES continuam sendo avaliadas pelos setores técnico, jurídico e administrativo da instituição financeira. A expectativa é que o avanço dessas análises possibilite a criação de mecanismos de financiamento para os condomínios interessados em realizar as obras.
Mais de 300 prédios apresentam inclinação
Atualmente, Santos possui 319 edifícios com algum grau de inclinação. Apesar de não haver indicação de risco imediato aos moradores, também não existe garantia de que essas estruturas permanecerão estáveis indefinidamente sem intervenções.
O fenômeno está relacionado às características do solo da cidade e aos métodos construtivos adotados entre as décadas de 1950 e 1980.
Especialistas explicam que a faixa da orla possui uma camada superficial de areia com cerca de 10 metros de profundidade. Abaixo dela existe uma extensa camada de argila marinha extremamente mole, formada ao longo de milhares de anos.
Por ser um material altamente deformável, essa argila sofre compressão sob o peso das edificações. Em profundidades próximas a 60 metros estão o solo residual e a rocha, camadas que não eram alcançadas pelas fundações utilizadas na maioria dos prédios construídos naquele período.
Inicialmente, os engenheiros acreditavam que os edifícios poderiam sofrer recalques verticais, mas não imaginavam que as estruturas também poderiam se inclinar. Em muitos casos, construções erguidas próximas umas das outras acabam influenciando mutuamente o comportamento do solo, contribuindo para a inclinação.
Correção já foi realizada em prédio da orla
Um exemplo de sucesso no reaprumo é o do edifício Núncio Malzoni, que apresentava inclinação em dois blocos e passou por obras de correção nos anos 2000.
Estudos recentes apontam diferentes alternativas para resolver ou estabilizar a situação dos prédios inclinados. Entre elas estão a instalação de estacas para interromper o avanço da inclinação, a transferência de carga para novas fundações profundas e o uso de macacos hidráulicos para reposicionar gradualmente as estruturas.
Também existem soluções que não envolvem o reaprumo completo do edifício, mas apenas sua estabilização, impedindo que a inclinação aumente ao longo do tempo.
Cada caso exige análise individual, já que as características estruturais dos prédios podem permitir ou restringir determinadas técnicas.
Nas obras realizadas no Núncio Malzoni, os moradores permaneceram em seus apartamentos durante todo o processo. A expectativa é que futuras intervenções em outros edifícios possam seguir o mesmo modelo, evitando a necessidade de desocupação dos imóveis.








